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FAMÍLIA

Brinquedos mas também jogos, por vezes roupa ou dinheiro. Eis algumas soluções para presentear as crianças. Revelamos o significado de cada uma delas e a forma como se enquadram nesta época festiva.

POR JÚLIA SERRÃO

Maria, nove anos cheios de energia, desembrulha três presentes por ordem de tamanho. Do maior ao mais pequeno, a alegria avança em crescendo. Uma mala com sombras e bâtons para treinar a prática de bem maquilhar, uma Barbie com vários acessórios e uma Play Station. No final, mais um embrulho, surpresa dos avós. A menina precipita-se sobre o pacote, mas logo depois fica nitidamente desiludida. A reacção de Maria no Natal passado, perante uma peça de roupa como presente, repete- se em muitas casas. Já em muitas outras, o mesmo acontecimento é motivo de espontânea alegria. O mesmo acontece com os presentes em forma de dinheiro, que para os mais novos é muitas vezes algo que passa ao lado do que, para eles, é suposto ser o ritual de troca natalícia. Contudo, basta crescerem uns palmos em altura, atingir no mínimo a puberdade, para mudarem de opinião. E agradecer, e muito, qualquer oferenda monetária.

Não há presentes universalmente perfeitos, mas cada criança tem seguramente o seu sonho de presente perfeito. E assim sendo, à semelhança dos jogos, livros e brinquedos, oferecer presentes úteis – uma peça de roupa ou dinheiro –, uma prática comum ao longo dos tempos, tem o seu próprio espaço nesta época. É possível dar continuidade a este costume não só porque o rendimento disponível para comprar é agora mais reduzido – e assim aproveita-se para dar uma peça de vestuário que a criança precise – como se justifica plenamente.

“Para as crianças mais pequenas a roupa pode ser o tipo de presente certo, pois ainda não brincam. Para outras mais velhas que não têm um guarda-roupa variado, também”, comenta o psicólogo clínico Manuel Coutinho.


Roupa e dinheiro, qual o lugar?
Há presentes que ajudam a sonhar, imaginar. Há os que treinam a memória e diferentes competências. É onde se incluem brinquedos, livros e alguns jogos. O dinheiro e o cheque no envelope, tal como a roupa, são chamados presentes úteis. O primeiro, o dinheiro, serve quase sempre para o jovem comprar artigos mais caros, por vezes roupa de marca e tecnologia, que de outra forma não compraria. “Se cada pessoa der um pequeno contributo, a criança consegue organizar-se e comprar o presente que sonhou”, observa Manuel Coutinho. É o tipo de presente muito popular em crianças e jovens de uma determinada faixa etária, independentemente do estrato socioeconómico a que pertencem. De qualquer forma, em alguns casos, “quando estamos a dar roupa ou dinheiro a uma criança, estamos a ajudar a família a que ela pertence”, esclarece.

 

A roupa é o presente ideal para os mais pequenos: presenteamos desta forma os bebés que, obviamente, não têm a noção de presentes. Mas, à medida que crescem, também é necessário “começar a povoar-lhes o imaginário com brinquedos”, esclarece o psicólogo clínico. Defende também que é importante que os pais expliquem aos filhos que há presentes que “também são úteis e fundamentais”, apesar de não entrarem no campo da fantasia. Por outro lado, assegura que não interessa presentear as crianças com uma quantidade infinita de presentes inúteis e repetidos. Não só “mas também porque os meninos não têm tempo para brincar com todos os brinquedos. Não vão explorar as potencialidades de cada um delese vão pôr alguns de parte”.

Quando entram na fase da pré-adolescência tudo muda: os brinquedos passam para segundo plano, a roupa (de marca) ganha estatuto, assim como os iPod, a Play Station e a restante panóplia tecnológica. “Por esta altura, os brinquedos começam a ter menos expressão, surge todo um outro tipo de presentes muito mais aliciantes”, prossegue o especialista, acrescentando que a importância dos presentes depende da idade da criança, do seu contexto socioeconómico e do “sonho que teve relativamente a ele”, brinquedo ou não.


Fantasia e realidade
Por tudo isto, a regra de ouro é comprar o presente a pensar na criança a quem ele se dirige. “Um menino que já tem as necessidades de vestuário satisfeitas, à partida quer outra coisa qualquer. Mas há outros para quem um par de calças é extremamente importante, até mesmo para se sentirem melhor vestidos e mais adaptados e integrados no grupo. Não podemos cair no erro de generalizar: tudo faz sentido de acordo com a necessidade.” De qualquer forma, segundo Manuel Coutinho, sempre que há uma época festiva com os contornos do Natal, em que lhe está associada a ideia de troca de presentes, “as crianças esperam que os adultos lhes dêem qualquer coisa de que elas gostam, independentemente de ser um presente embrulhado, dinheiro ou roupa”. Isto acontece porque os meninos e jovens gostam de ser presenteados e de saber que alguém se lembrou deles. Aliás, o psicólogo diz mesmo que os pais devem ensinar aos filhos, desde muito cedo, “que o facto de alguém lhes dar um presente significa que está presente na vida deles, alguma forma, e que isso é o mais importante”.

A intenção é tão importante quanto o presente em si, se não mais ainda. Do outro lado, o receber também é cheio de sentidos. Há crianças que não dão importância ao papel e ao laço, para outras aqui também reside o mistério, a beleza do ritual. “A graça” também está no facto “do presente vir embrulhado”, envolvido na opacidade do papel com sinos e trenós desenhados a vermelhos e dourados. Isto acontece porque por vezes “a fantasia é mais importante do que a realidade, a fantasia supera a realidade”.

Sem regra, portanto, a indicação do especialista é que “os pais devem procurar equilibrar a tipologia dos presentes que dão aos filhos”, reunindo presentes lúdicos e presentes úteis. Na prática, presentear as crianças com os brinquedos de que gostam, os jogos e os livros, uma peça de roupa e os CDs. Sempre dentro das suas possibilidades económicas e de acordo com a fase de desenvolvimento da criança. “Não podemos cair numa feira de vaidades”, observa o psicólogo a propósito, alertando para o facto de hoje muitas crianças já não ficarem contentes por terem um presente pelo presente. “Já tem de ser o presente da marca x, e electrónico, e porque o fulano tem”, explica.

Seja como for, que nunca faltem os livros e os brinquedos que nos ajudam a imaginar e a exercitar a memória. É que ambos têm um duplo sentido, uma dupla função: são lúdicos e são pedagógicos. Manuel Coutinho concorda: “Uma criança que não brinca é uma criança que não está feliz. Uma criança que não sonha é uma criança que vê o futuro comprometido, porque nós precisamos de sonhar para correr atrás do sonho.”













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