Entre Nova Iorque e Lisboa, entre
a Medicina e o Teatro, Paula Lobo Antunes tenta encontrar o seu rumo. Histórias de várias experiências que já viveu e daquelas que estão para vir.
Por Anabela Mota Ribeiro | Fotografia de Carlos Ramos | Styling de Ricardo Preto |
Era suposto que fosse médica. Esteve quase a sê-lo. Licenciou-se em Biologia Médica, na Escócia. Mas depois recusou um destino familiar e foi ser feliz no teatro. Tinha 22 anos. Nessa altura, no teatro, era a Paula Plantier. Na carreira médica, seria Paula Lobo Antunes. Em Portugal, sendo actriz, ela é a Paula Lobo Antunes. Passivamente. Um nome é um nome, não há que ter nele vergonha ou orgulho – diz ela.
Paula sabe quem é. Tanto quanto uma pessoa sabe quem é depois de virar os 30. “Ir à infância pode ser perigoso. É fácil um actor perder-se, seja em álcool, drogas, depressões, comportamentos não aceitáveis. Encarar várias personagens é quase como ser um esquizofrénico, ou ter multiple personality. Se não temos a consciência da pessoa que somos, pode-se tornar perigoso.”
A história é antiga. Ser outros sempre existiu. Ser vista por outros também.
Vive uma espécie de segunda vida?
Isto de ser actriz? Desde pequena que me lembro de querer ser actriz. Aos quatro anos cantava e fingia que era outras personagens. Era um mundo imaginário. Intenso. Eu era muito solitária. Este mundo de fantasia era só meu. Não sei se era por vergonha ou por aquilo ser uma coisa tão preciosa que queria guardá-la para mim. Fazia um jogo, uma brincadeira: fingia que existiam câmaras em vários pontos, mexia-me e pensava que a câmara tinha mudado de lugar; continuava a fazer a minha brincadeira e pensava que estava a ser filmada ou vigiada.
Quando é que pela primeira vez falou desse mundo?
Há pouco tempo. Acho que os meus pais sempre souberam que tinha esse meu mundo, que queria ser actriz, que era uma criança sensível. Começo a conseguir partilhar estas partes, que são mais interessantes do que o meu dia-a-dia – para onde é que saio ou o que é que como… Também estou à descoberta de mim própria.
Como é que cria uma personagem?
É começar uma vida nova. Crio essa personagem praticamente de nascença; qual é a sua comida ou cor favorita, como é que foi a infância. Tínhamos um exercício no curso [que fiz em Londres] que era criar um diário da personagem. Uma pessoa verdadeira com emoções e memórias. O cheiro, o perfume, o andar, a fisicalidade, a postura, como é que mexe as mãos. Se calhar são as minhas várias vidas, mais do que as sete de um gato.
Se pensarmos nas suas vidas, é fácil apontar várias.
Vejo-a como o meu percurso, a minha viagem. Voltei para Portugal há três anos, depois da Escócia, Londres, Brasil, Itália, Nova Iorque. Tudo isso constrói e me proporciona ser a pessoa que sou hoje. Essas várias etapas são todas necessárias. Mas não penso que vou ficar aqui para sempre. Tenho esta veia cigana, nómada, sinto que há possibilidades em todo o lado.
Antes disso, tinha estudado Biologia, e tudo se encaminhava num sentido diferente.
Fui estudar Biologia Médica, com o objectivo de fazer a seguir Medicina, em Nova Iorque. Tentei ir para o curso de Medicina, mas entrei para o de Teatro. Até hoje foram os dias mais felizes da minha vida. Foram também os mais duros. Os professores diziam que eu tinha de reprogramar o meu cérebro! Era tão matemática, tão científica, tão lógica a pensar, que questionava tudo. Era muito intelectual. Libertar-me da cabeça para o coração, que é de onde vêm as emoções, custou-me bastante.
O que é que foi mais difícil?
Era o medo de falhar. Não querer fazer uma coisa se não estivesse segura de a fazer bem feita. É uma exigência que tenho para comigo, é uma luta constante. Aprendi que não é o fim do mundo [se isso acontecer].
Lidar com o falhanço?
Sim, saber que posso cair no chão e não passo do chão. Não sei se isto tem a ver com a minha família, com a exigência. Desde o meu avô, a minha mãe, o meu pai, em termos académicos; exigência para ter sempre boas notas.
É uma família de intelectuais, não é uma família de artistas.
É uma família muito académica. Tornámo-nos um bocado competitivos – os primos, os irmãos, os tios. Acho que queremos provar que somos bons. Não é por mal, não é por arrogância, é uma coisa inata. Ao mesmo tempo, não existe família mais unida, que mais apoia, que mais conhece os seus falhanços e os accomplishments [realizações].
Pensou usar nesta vida, que corresponde a um universo diferente, um apelido diferente? Como se Lobo Antunes fosse um apelido da Ciência.
Quando vivi em Londres usava outro apelido. Usava o nome da minha mãe, Plantier. Tinha de ser um nome que as pessoas conseguissem dizer facilmente. Em Portugal, de uma forma passiva, deixei que decidissem por mim. Fiz o meu primeiro trabalho, o João Semana para a RTP, e na ficha técnica apareceu Paula Lobo Antunes. É o nome com que nasci, há que não ter vergonha nem grande orgulho. Mas não gosto desse estigma ligado ao nome.
Alguma vez pensou que podia não ter talento?
Claro! A primeira vez que representei foi a minha família toda a Londres ver a peça. A minha mãe sempre acreditou em mim, sempre me criticou construtivamente. O meu pai viu a peça e disse assim: “Estava com medo que você fosse uma merda, ainda bem que não é!” [risos]. Sei que aquilo era um grande elogio.
Queria fazer teatro, cinema? Queria viver no mundo todo, tinha planos concretos?
Era o que fosse. Um actor pode fazer de tudo. Quando estava em Londres a trabalhar em restaurantes e coisas assim, ia a castings de tudo.
Teve de trabalhar em restaurantes?
Não tinha dinheiro. Como é que ia sobreviver? Durante o curso tinha o “paitrocínio” e o “mãetrocínio”. Sem eles, não tinha feito o curso porque era muito caro. Fui muito sortuda. Mas houve discordância entre mim e os meus pais, no sentido de eu querer viver em Londres ou Nova Iorque, em vez de estar em Portugal. Como era uma decisão minha, eu é que me sustentava.
Porque veio para Portugal?
Sim, é uma carreira diferente, é uma luta diferente. O que aconteceu foi que já estava sem trabalhar há dois anos e ofereceram-me um papel para fazer teatro em Portugal. As pessoas conheciam-me simplesmente por ser Lobo Antunes, por ter feito a Escrava Isaura no Brasil e as séries de época da RTP. Não sabia o que ia acontecer quando acabasse a peça. Depois fiz um casting e entrei para uma novela, e as coisas foram acontecendo.
A sua primeira língua é o inglês (até aos cinco anos só falava inglês). É diferente ser actor em inglês e ser em português?
A língua é essencial para um actor. Tenho mais facilidade em inglês. Quando tenho dificuldade em dizer uma frase, digo-a em inglês, para descobrir qual é o sentimento que traz essa frase. Tinha de dizer: “Amo-te.” Eu nunca tinha dito “amo-te” a ninguém. Já tinha dito “I love you”. E pensei: “Como é que vou dizer isto?”
Os seus afectos não foram em português?
Não. Ainda hoje os meus pais me dizem “I love you”, e eu digo-lhes a eles, e às minhas irmãs, aos meus amigos. Com o meu pai posso ter uma conversa, um almoço inteiro, eu a falar em inglês e ele em português. Há certos assuntos que têm de ser em inglês.
Que assuntos é que são em inglês?
Problemas pessoais [risos], coisas mais traumáticas, coisas exaltadas, discussões. O passageiro, o dia-a-dia, não.
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