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ESTRELA DO MÊS


É um nome a reter. Será Amália no filme que agora estreia. Terá nascido uma nova estrela? É bem possível, apesar de
Sandra Barata Belo recusar esse estatuto.
Por Paulo Portugal
Fotografia de Pedro Ferreira

Por alguns meses, a menina de Alfama substituiu o ritmo frenético da música do Bairro Alto pelo lamento da guitarra portuguesa. No youtube captou o gesto e os movimentos da cantadeira que celebra em Amália, o Filme. Aos 29 anos estreia-se no cinema, ao mesmo tempo que rasga espaço para novos voos. Aqui fica uma conversa sobre uma mulher que privilegia acima de tudo o momento presente. E que a ela agora pertence.

O que mais a fascinou neste percurso em que reviveu a vida de Amália?
Fascinou-me sobretudo o desafio de acompanhar a vida e as transformações de comportamento de Amália Rodrigues, desde os 18 anos até aos 64. Mesmo sendo a mesma pessoa, comporta-se de uma maneira diferente consoante seja uma adolescente de 18 anos ou uma mulher madura.

Imagino que tenha procedido a uma exaustiva documentação prévia sobre a fadista…
Sim, era o que eu ia dizer. Foi mais fácil porque tive dois meses de preparação. Tanto com os documentos visuais e audiovisuais mas também o contacto com o realizador [Carlos Coelho da Silva] e os outros actores nos ensaios.

Hoje é fácil de reconhecer que o seu rosto é realmente parecido com o de Amália. Mas antes já lhe diziam isso?
Não. Eu era apenas uma rapariga normal que conhecia a Amália e os fados dela, mas não era sequer uma fã, por isso, essa eventual parecença física passava despercebida. Agora, depois de fazer o filme, sinto que já conheço a vida dela, o seu comportamento, as reacções. E concordo até que o meu rosto tenha alguns traços semelhantes.

Também comunga com Amália o facto de ser lisboeta, certo?
Sim, nasci perto de Alfama e sempre convivi muito com as pessoas do bairro. A minha escola ficava perto do Chapitô, onde estudei, e convivia com os miúdos e miúdas que vinham de Alfama, do Castelo, da Mouraria, da Graça, da Penha de França. E alguns deles eram mesmo muito bairristas. Acabou por ser uma boa memória para mim.

De que forma a passagem pelo Chapitô influenciou a sua formação?
O Chapitô é uma escola profissional, onde se aprendem as técnicas circenses, não é uma escola superior. Foi aí que eu estudei teatro, entre outras coisas. A minha formação como actriz começa aí e desenvolve-se depois através de workshops e de cursos mais específicos que resolvi tirar.

Já se considerava actriz antes deste filme?
 Sempre me considerei, embora com características diferentes das actrizes, pois tenho uma destreza física que me permite subir a uma corda ou fazer acrobacias. No meu caso, ainda bem que assim é. Aprendi mais um teatro físico, do gesto, o clown, que está muito associado à mímica, à máscara.

Essa experiência física ajudou-a neste projecto em particular?
Ajudou, sem dúvida. A memória da Amália ficou-me no corpo, até porque eu estudei muito a Amália através do corpo. Não consigo fazer a Amália só com a voz e o olhar, tenho de sentir o corpo, a sua postura.

O que mudou depois desta experiência?
No aspecto profissional acrescentei algo em mim que desconhecia, que era o cinema. Foi apaixonante. Isso faz com que alargue o meu campo de interpretação.

Como recebeu a notícia de que poderia interpretar Amália?
Era de manhã, tinha acabado de acordar e recebi um telefonema da minha agência a dizer-me que iam fazer um filme sobre a Amália e estavam à procura da própria Amália. Fiquei contente, porque pensei que aquilo poderia ter a ver comigo.

Foi uma percepção imediata?
Foi, foi uma sensação muito positiva. De repente, consegui fazer essa ligação e ver-me a fazer de Amália. Mas claro que percebi que haveria outras pessoas que poderiam fazer tão bem essa ligação.  Se não tivessem visto a minha fotografia, se calhar nem teria aparecido.

Como se preparou para a audição?
Fiquei fechada quatro dias em casa a ensaiar os temas que nos deram para interpretar: Foi Deus e Estranha Forma de Vida. Procurei na Internet, no youtube, temas da Amália a cantar, excertos de entrevistas e aluguei ainda o filme Fado, História de Uma Cantadeira [1948, de Perdigão Queiroga]. Procurei a informação como quem sabe pouco da Amália.

Não teve nenhum momento de desespero, do tipo “será que consigo fazer isto”?
Não, o primeiro impacto foi muito positivo. Pensei eu: “Vou ficar com a herança de representar a Amália.” Claro que depois vêm as dores de cabeça e de barriga. Quando comecei a estudar a Amália tinha ela morrido há oito anos [a 6 de Outubro de 1999], por isso é alguém que está muito na memória das pessoas que a conheceram.

Teve alguns encontros com Estrela, a secretária e confidente da Amália. O que aprendeu com ela?
Gostei muito de conhecer a Estrela. A Amália foi uma pessoa que muita gente amou e ainda ama, por isso coloquei-me na posição de alguém que apenas a quer representar e saber como reagia a certo tipo de situações. Como se comportava, para perceber o que poderia fazer com o meu corpo, com a voz e o olhar. Agora, claro, ela gosta de contar imensas histórias sobre a Amália. Divertimo-nos imenso nesses encontros.

Mesmo sem ter visto o filme, será inevitável que muita gente faça comparações com o filme da Edith Piaf, La Vie en Rose (2007). Pelo menos pela transformação física da personagem. O que lhe parece do seu ponto de vista?
O que se pode parecer mais com o filme da Edith Piaf é que a Marion Cotillard também acompanhou um percurso histórico, desde a altura em que tinha 20 anos até aos 40. Mas a Edith Piaf esgota-se rapidamente e nem sequer chega aos 50 anos. A Edith Piaf era explosiva, muito física e com uma energia exterior. Eu faço a Amália num período de vida maior, dos 18 aos 64. Por outro lado, a Amália era muito mais interior, com uma enorme contenção, no palco quase não se movia. Era mais a tragédia, o negro e aquela voz...

Como foi trabalhar com o realizador Carlos Coelho da Silva? Foi ele o grande maestro de toda essa intensidade?
 Discutimos, falámos muito e ele soube orquestrar tudo. A mim deu-me muito espaço, bem como aos outros actores, embora sabendo sempre aquilo que queria.

Apesar de morar em Alfama pode dizer-se então que era sobretudo uma menina do Bairro Alto?
Sim, sim, comecei a ir para o Bairro Alto muito cedo, como todos os jovens do meu tempo. Por isso ouvia as tendências do rock da altura, como os Radiohead, Smashing Pumpkins, Nirvana, obviamente, ou coisas mais fatelas, com os Guns & Roses ou Jon Bon Jovi... Ao mesmo tempo ouvia Dead Can Dance ou Diamanda Galas. E até Bach e Beethoven.

Com este filme, pretende dar voos diferentes?
Está tudo muito calminho. Tenho algumas ideias e projectos, mas não está nada assinado. Eu também gosto desta calma, porque não estou preocupada com o futuro. É melhor viver o momento presente.

Como encara a exposição que terá quando o filme estrear?
É algo que não posso controlar. Gosto de ter a minha reserva, apesar de não ser bicho do mato.

Não sente também um misto de fascínio?
Não creio nisso. As pessoas têm de ser reconhecidas pelo trabalho que fazem e ponto final. Tudo aquilo que é demais é uma pinderiquice. Se gostasse tinha mediatizado mais a minha imagem, fazendo outros trabalhos mais comerciais.

Mas também não se envergonha de ter feito as Chiquititas...
Claro que não! Gostei imenso de ter feito a Bárbara, das Chiquititas. Diverti-me imenso. Acho que há produtos de novela que são bons e que preenchem os requisitos.

De qualquer forma, Amália também será uma série de televisão. Sentiu, durante a rodagem, uma divisão de cenas apenas para televisão?
Só agora quando vi o filme montado, ainda sem tratamento de som e pós-produção, é que percebi o que ficou para a série de televisão. Quando estava a filmar não tinha a consciência do que era série ou filme. E preferia nem saber.

Acha que temos um mega-sucesso em perspectiva?
Isso não sei. Mas agradou-me aquilo que eu vi na montagem. 120 minutos é pouco para contar a história da Amália. Por mim, não tirava nenhuma cena. Mas a série estará lá para complementar o filme.

Foi difícil fazer a dobragem dos lábios nas cenas musicais?
É uma técnica, mas hoje em dia é mais fácil do que fazer os playbacks, pois existe uma forma de acertar esse sincronismo dos nossos lábios com a imagem. O complicado foi repetir aquilo que estava bem feito e algumas situações em que melhorámos a interpretação.

Sente-se uma mulher realizada?
Não, acho que serei sempre insatisfeita. Para ser realizada acho que precisava de viver num mundo melhor.













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