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Novos hábitos
Dê um pontapé na crise e lance um novo olhar sobre os tempos difíceis que se avizinham. Aprenda a gerir o seu dinheiro. |
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Vivemos a primeira crise global. O novo ano promete ser difícil. O tempo é de prudência nos gastos e de gestão atenta das finanças. Embarque connosco numa viagem ficcionada à origem da actual crise. E no regresso à realidade.
Por Helena Garrido

ualquer semelhança entre esta história e a realidade… não é coincidência. Eis uma história ficcionada que, construída na busca do sonho americano, se transformou num pesadelo mundial. A NewCent é uma sociedade financeira norte-americana especializada em crédito pessoal e para a compra de casa. Nome inspirado nas promessas de prosperidade do novo século, tem créditos firmados na inovação financeira. Não recebe depósitos, mas todos os bancos lhe emprestavam o dinheiro que quisesse, para com ele financiar famílias de reduzidos ou nulos recursos. A sua especialidade era exactamente essa: emprestar a quem ninguém concedia crédito porque não tinha rendimento nem emprego estável. O mercado que todos passaram a conhecer como subprime.
Maddy, afro-americana, era uma das muitas clientes dessa sociedade financeira. Vivia com os seus dois filhos. Tinha um rendimento muito variável. O trabalho não era certo. Perdia com frequência o emprego porque faltava muito. Um dia perguntaram-lhe se queria comprar uma casa. Comprar uma casa, ela? Claro que sim. Mas quem lhe emprestaria o dinheiro? “Nós emprestamos.” A NewCent organizou tudo.
Maddy e os seus dois filhos foram para a nova casa. Nos primeiros tempos, tudo correu muito bem. A NewCent até lhes emprestou mais dinheiro para comprar a televisão que o filho mais velho queria. Explicaram-lhe que a casa dela valia agora mais dinheiro, podia reforçar a hipoteca e ir assim buscar mais crédito. --- Mas como conseguia a NewCent correr o risco de emprestar a pessoas como Maddy? Muitos outros, no passado, nunca tinham conseguido resolver bem esse problema: como fazer quando não lhe pagavam. Contratar alguém para recuperar o que lhe deviam não era uma solução. Em regra, quem não pagava não tinha o dinheiro. E a empresa não podia acumular casas ou coisas sem valor em armazéns caros.
as a NewCent nasce porque alguém pensou que tinha resolvido esse problema. Um matemático, um engenheiro financeiro... não se sabe bem. A solução é simples, disseram. Esses empréstimos podiam ser vendidos como produtos financeiros a quem tivesse dinheiro para aplicar. Mas quem quereria aplicar as suas poupanças em empréstimos concedidos a pessoas que não tinham um rendimento? Bem, não precisavam de saber exactamente o que estavam a comprar. Desde que fosse rentável, ninguém levantaria problemas. E com as taxas do banco central, baixas como estavam, seria sempre mais rentável que outras aplicações, já que esses créditos pagavam juros mais altos.
Prestação para a casa mais baixa
1. O Banco Central Europeu vai continuar a descer a sua taxa de juro, o que se vai reflectir já no mês de Dezembro na redução das prestações do crédito da casa. Quem tiver a revisão do seu contrato este mês, começará a pagar menos. E ao longo do ano, o encargo com a casa ainda vai descer mais
2. Os impostos também vão diminuir. O Governo português aumentou a dedução referente aos empréstimos da compra de casa à colecta de IRS, com efeitos já para este ano, o que significa menos impostos. Criou ainda o 13.º mês de abono de família para todos
3. Para que a banca não se retraia na concessão de crédito, o Governo estabeleceu uma linha de 20 mil milhões de euros para garantir os empréstimos dos bancos uns aos outros, o que inclui quatro mil milhões de euros para que as instituições financeiras aumentem o seu capital
4. A par disso, estão planeados investimentos públicos. E estas medidas podem não ficar por aqui. No quadro da União Europeia, é possível que se adoptem outras acções |
Mas como evitar o risco, elevado, de essas pobres famílias não pagarem os créditos? E aqui pareceu nascer o Ovo de Colombo. Os empréstimos subprime seriam partidos em várias fatias. Cada parcela formaria um produto que seria depois vendido aos balcões dos bancos com a forma de um fundo de investimento com um nome sedutor. A boa rentabilidade era garantida pelos juros, mais elevados que o normal, pagos por quem recebia esses empréstimos subprime. Pessoas como Maddy, a afro-americana.
O processo era simples e (parecia) não ter praticamente risco. O crédito de Maddy, como o de muitas outras pessoas como ela, sem emprego nem rendimento estável, estava espalhado, aos bocadinhos, por todo o mundo.

s especialistas em análise de risco consideraram esta ideia óptima. O risco estava distribuído por vários bancos e, como tal, era menor. Além disso, como boa parte desses créditos era usado para comprar casa, caso não fosse pago, retirava-se a casa – o que é muito rápido nos Estados Unidos – e voltava-se a vendê-la. Como o preço das casas estava sempre a subir, o negócio dava dinheiro certo. Os avaliadores de risco deram a sua bênção a esta engenharia financeira. Todos andavam satisfeitos. Quem tinha dinheiro estava a emprestar, sem o saber, a pessoas extremamente pobres.
Algumas pessoas, incluindo economistas, convenceram--se que se tinha descoberto a fórmula mágica de dar a todos acesso a crédito, de concretizar o direito a uma casa e até de combater as desigualdades.
Até que, um dia, o sonho se transformou em pesadelo. Tudo começou com a subida das taxas de juro.
À casa de Maddy começaram de repente a chegar contas mais altas para pagar pela casa. Não estava a conseguir pagar. Tentou pedir mais um empréstimo, mas disseram-lhe que a casa dela agora valia menos. Maddy deixou de pagar a casa. Passados dois meses, estava dentro do seu velho carro com o pouco que tinha de seu e os seus dois filhos, sem sítio para onde ir. Tinha perdido a casa.
Tal como Maddy, muitos outros deixaram de pagar os seus empréstimos. Foram despejados e, quando as sociedades como a NewCent tentaram voltar a vender as casas, os preços começaram a cair – havia casas a mais deixadas pelos “filhos do subprime”.
Fazer contas, sempre
Anotar o que se gasta é uma regra que parece aumentar o dinheiro disponível. Quem o faz consegue perceber exactamente onde estão as “gorduras” que podem ser cortadas nos gastos. E cada despesa passa a ser pensada
Outra técnica que pode multiplicar o dinheiro é sentir... o dinheiro. Quando se paga com dinheiro é muito fácil. O pior é o cartão. Mas mesmo quando se paga com cartão, basta criar a disciplina de anotar tudo o que se gastou em cada dia de compras para se perceber os erros que por vezes se cometem
A regra de fazer uma lista antes de ir às compras e não sair do que foi pensado que, de facto, se precisava é um sucesso. |
A sociedade NewCent, que emprestou a pessoas como Maddy, não recebeu dos clientes e assim também não entregou a mensalidade ao banco que lhe tinha comprado os créditos. O banco não conseguiu pagar aos outros bancos espalhados pelo mundo, a quem tinha vendido aqueles produtos. E os clientes com dinheiro, que aplicaram as suas poupanças nesses produtos, começaram também eles a querer o seu dinheiro de volta. Um círculo infernal envolveu o mundo financeiro de todo o mundo. O baixo risco tinha-se transformado num vírus global, o produto inovador era agora um produto tóxico.
Sociedades como a NewCent declaram falência. Os bancos estiveram em risco de ir pelo mesmo caminho e alguns, poucos, não se salvaram. Os que conseguiram sobreviver tiveram a ajuda dos governos, dos bancos centrais ou foram mesmo nacionalizados. --- Com medo uns dos outros e dos clientes, os bancos começaram a ser de um rigor extremo nos empréstimos que concediam. Emprestavam pouco e o que financiavam era a taxas mais altas do que as orientadas pelos bancos centrais. Empresas sem crédito começaram a pensar em despedir. Os governos entraram em acção com ajudas. O fim de uma história que começou com a ilusão de se ter descoberto como fazer negócios arriscados sem risco.
Basta substituir NewCent por New Century e estamos perante o primeiro caso de falência desta crise, gerado pelo colapso do famoso mercado subprime.
Aconteceu em Abril de 2007. A New Century Financial, uma das maiores sociedades norte-americanas especializadas em crédito subprime, declarou falência colocando-se sob protecção dos credores. A Goldman Sachs e o Barclays Bank eram dois dos seus maiores credores. O vírus estava lançado e criado o efeito em cadeia. A dimensão do problema só se generalizou dramaticamente na Europa quando, a 9 de Agosto de 2007, o banco francês BNP Paribas anunciou a suspensão de três dos seus fundos de investimento ligados ao crédito subprime devido, segundo afirmou na altura, “à evaporação total da liquidez em alguns mercados de titularização nos Estados Unidos”. É nesse dia que se assiste à primeira de muitas outras intervenções do Banco Central Europeu, emprestando todo o dinheiro que os bancos necessitassem.
Desde Abril de 2007, vivemos num ambiente de grande instabilidade financeira, com picos de maior violência. Quando já existiam previsões de regresso da calma, durante o Verão passado, a instabilidade regressa com renovada violência, a partir de 14 de Setembro, quando as autoridades norte-americanas decidem deixar falir o banco de investimento Lehman Brothers. Apanhados desprevenidos, os bancos reforçam a atitude de desconfiança uns nos outros. Como consequência, o mercado do crédito entre os bancos deixa praticamente de funcionar, provocando a subida de taxas de juro como a Euribor, tão importantes na determinação dos encargos com o crédito à habitação.

iveram-se tempos muito difíceis entre meados de Setembro e Outubro. A desconfiança entre os bancos, gerada pela falência do Lehman, contagiou-se às pessoas em geral. Os portugueses, como os restantes europeus, começaram a preocupar-se, pela primeira vez desde a origem da crise em Abril de 2007, com a segurança do seu dinheiro depositado nos bancos. Ouvem-se as primeiras conversas sobre bancos mais ou menos seguros. Estava a criar-se o ambiente de pânico que poderia levar ao colapso do sistema financeiro. E é só no fim-de-semana de 11 e 12 de Outubro que os governos europeus atacam verdadeiramente o problema, avançando com medidas concretas.
Fazer dinheiro com boa gestão
Mais tempo dedicado à gestão financeira da casa pode ser mais dinheiro. Um esquecimento vulgar é a actualização do seguro de vida associado ao crédito à habitação. Este seguro é exigido pelos bancos para garantir que o empréstimo é pago, em caso de morte ou invalidez do credor. Como o valor da dívida pela casa vai diminuindo, também o valor seguro se pode reduzir, sinónimo de pagar um prémio mais baixo. Vale a pena ter o trabalho de olhar para a apólice de seguro anualmente e actualizar o valor para o capital efectivamente em dívida. Pode-se poupar um bom dinheiro com isso. |
Os governos europeus e norte-americano levaram muito tempo, primeiro a compreender e a diagnosticar a doença, depois a encontrar os remédios certos para um mal que não conheciam. Decorreram uns longos 18 meses, desde Abril de 2007, até se chegar ao que se pode dizer que é a terapia mais adequada à virose chamada subprime, em Outubro de 2008.
Hoje, os clientes bancários estão mais calmos. Os governantes garantiram a segurança dos depósitos numa primeira fase – afirmando indirectamente que não deixariam nenhum banco falir – e, em seguida, começaram a adoptar medidas de apoio às empresas e famílias. Uma terapia que está a ser seguida, em linhas gerais, por todos os países da Zona Euro, pelo Reino Unido e até pelos Estados Unidos, que alteraram o seu plano inicial para agora apoiarem directamente os bancos, as famílias e as empresas.
negócio de crédito subprime não existia em Portugal. Mas nem por isso o sistema financeiro português e a economia ficaram imunes a uma crise financeira que é global. A dimensão dos efeitos na economia, onde Portugal poderá sentir mais a crise, é difícil de avaliar. Quer porque não se sabe ainda qual o impacto na actividade das empresas dos principais parceiros comerciais de Portugal quer porque não é fácil estimar o efeito positivo das medidas já adoptadas pelo Governo e pelo Banco Central Europeu para moderar a tendência recessiva.
Seja qual for a dimensão, o que se pode admitir neste momento é que os primeiros meses de 2009 serão difíceis. Os salários não deverão aumentar, algumas empresas vão fazer despedimentos e será mais difícil encontrar um novo emprego. A crise na economia espanhola, com a qual Portugal tem fortes ligações, e a recessão já em andamento na Alemanha e Espanha contribuem para afundar adicionalmente a actividade das empresas em Portugal.
A descida das taxas de juro por parte do Banco Central Europeu vai aliviar os orçamentos familiares e das empresas com dívidas. A prestação da casa vai descer, libertando dinheiro para outros gastos. E a descida do preço do petróleo permitirá reduzir os gastos com o transporte de casa para o trabalho. Essas são as perspectivas animadoras.
O Governo português, em linha com o que já se está a fazer na Europa, adoptou um conjunto de medidas para contrariar a recessão que parece inevitável. Uma das principais características desta crise é a redução da quantidade de financiamento na economia. Sendo o circuito do dinheiro uma espécie de aparelho circulatório da economia, o que os governos e os bancos centrais estão a fazer é basicamente injectar recursos através de obras públicas, redução de impostos, diminuição do preço do dinheiro e concessão de empréstimos.
A prudência recomenda que nos preparemos para um novo ano de dificuldades. Se assim não for, será uma agradável surpresa. Preparar para o pior significa prudência nos gastos e uma análise cuidadosa das despesas. Olhar para os encargos da casa com atenção pode permitir boas poupanças. Aproveitar todas as pechinchas também. Poupar é a nova moda, após décadas que pareciam prometer o impossível de gastar sem olhar ao ganhar. |
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