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Uma moda, ou arte corporal, não isenta de riscos. Saiba quais são e tome as devidas precauções.
Por Natacha Borges
Aos estúdios de tatuagens e pírcingues chegam pessoas de ambos os sexos, de todas as idades, estratos sociais, económicos e culturais. Solicitam desenhos tribais, caveiras, borboletas, flores, aranhas, escorpiões, a cara do namorado ou da namorada, o Hitler, a Betty Boop, letras góticas, japonesas ou árabes, entre muitos outros motivos, figurativos ou abstractos.
O mesmo acontece com os pírcingues (piercings, em ingês). Há quem goste do brinco de pequeno formato no nariz, outros um maior |
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no sobrolho. E há quem os prefira no lábio, na língua, no umbigo, ou
que opte por colocá-los, de forma discreta, nos mamilos, no pénis ou na vagina. Aquilo que antes representava uma expressão de contra-cultura foi progressivamente sendo absorvido e aceite pela sociedade, até ao ponto de se tornar um fenómeno mainstream, de moda, de massas.
Independentemente das escolhas de cada um, e porque vivemos numa sociedade democrática, onde se aceita que cada um faça o que quer com o seu próprio corpo, existem questões sobre as quais importa reflectir. A primeira está relacionada com a segurança de quem procura este tipo de intervenção corporal. A segunda tem a ver com o seu carácter permanente, a nível estético.
Mais vale prevenir…
• Verifique se tem as vacinas em dia (Tétano e Hepatite B) l Escolha bem o local – com condições de assepsia e esterilização dos materiais. As agulhas devem ser de uso único e descartável, as tintas “estéreis” e as embalagens dos preparados (de tintas) devem estar devidamente rotuladas. As pistolas de perfuração das orelhas e do nariz devem estar higienizadas e equipadas com dispositivo descartável. Os profissionais devem estar equipados com luvas e máscaras
• Escolha bem o profissional (experiente e que esclareça quanto aos riscos e cuidados de saúde)
• Reflicta sobre a tatuagem e o local do corpo em que a vai realizar com antecedência (e escolha um profissional cujo traço artístico lhe agrade)
• Reflicta sobre o pírcingue que vai colocar e sobre o local. Os orais e os genitais requerem uma escolha atenta. O formato deve ser simples, sem arestas, lascas ou porosidades, que possam traumatizar os tecidos e interferir nos movimentos naturais. Quanto aos materiais, apesar de mais caros, são mais aconselháveis os de titânio (utilizados em implantologia dentária) ou, então, os de teflon ou bioplast. Os de aço cirúrgico, muito utilizados, vão libertando níquel, uma das substâncias mais causadoras de alergias no corpo humano
Cuidados a ter
• Lavar todos os dias com anti-séptico o local da tatuagem ou pírcingue e aplicar uma pomada cicatrizante
• Não tirar o pírcingue (hipoalergénico) durante o período de cicatrização. Depois, lavá-lo igualmente duas vezes por dia, nos primeiros meses
• No caso dos pírcingues genitais, usar um sabão com pH adequado e evitar as relações sexuais até a zona cicatrizar
• Evitar a exposição ao Sol, banhos de mar ou piscina
• Contactar um médico se surgirem sinais de inflamação, dor ou febre sadoras de alergias no corpo humano
Desaconselhados
• A quem sofre de doenças de pele (como acne, herpes, verrugas, dermatites)
• A quem possui sinais/cicatrizes em relevo
• A quem é alérgico aos pigmentos usados em tatuagens ou a metais (as agulhas são de aço)
• A quem sofre de hemofilia ou epilepsia
Remoção de Tatuagens
Laser É o método mais eficaz. A aplicação de feixes de luz nos pigmentos (sobretudo os não coloridos) possui uma eficácia de 90 por cento, embora possam sempre deixar marcas. Saiba ainda que estes aparelhos, de elevada potência, usados em dermatologia, devem ser operados por médicos.
Cirurgia plástica e Dermoabrasão São métodos menos eficazes e mais dolorosos, além de que também podem deixar cicatrizes.
São seguras as tatuagens temporárias negras de henna?
A resposta é não. Estas tatuagens, que só duram uma semana, podem desencadear reacções alérgicas e danos permanentes na pele, como descoloração ou cicatrizes. “A eczema pode ser violenta, mesmo após uma única exposição, necessitando por vezes de intervenção médica urgente e/ou hospitalização”, advertiu o Infarmed, em Maio deste ano.
Bolhas, manchas e comichão são efeitos imediatos possíveis, causados por concentrações elevadas de corante na sua composição, assinala ainda a Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde.
A cor da pasta de henna natural varia entre o verde-acastanhado e o castanho. Se a cor for mais escura (negra), desconfie. |
Fazer uma tatuagem ou um pírcingue não é o mesmo que mudar o estilo da roupa que se usa. A inscrição de desenhos ou a perfuração do corpo envolve riscos para a saúde que devem ser acautelados.
Alguns estudos estimam que entre três a cinco por cento da população mundial já possua pelo menos uma tatuagem ou pírcingue, embora as estatísticas não sejam rigorosas. Em Portugal, existirão perto de 60 estúdios, de acordo com o Anuário de Tatoos & Piercings 2008 (www.anuariotatoo.com/directorio-tatooportugal.pdf).
Se o talento deve ser procurado por quem quer fazer uma tatuagem, para não gravar uma imagem na pele que mais tarde virá a considerar inestética, a questão “qualidade” pode ser ainda mais pertinente.
Um estudo da Comissão Europeia, efectuado em 2003, concluía que a realização de tatuagens ou a aplicação de pírcingues, sem os devidos cuidados de assepsia e de saúde, pode levar a contrair doenças como a sida, hepatites, infecções bacterianas, reacções alérgicas, lesões malignas – como o melanoma –, entre outras.
Phillipe Busquin, orientador do estudo, apontava, à data, que a legislação referente ao sector era manifestamente insuficiente, porque obrigava apenas ao uso de luvas e à esterilização de agulhas, e que o restante material utilizado, como tintas e metais, por exemplo, permanecia fora da esfera legislativa.
Um estudo da DECO conduziu a alertas semelhantes. A Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor enviou colaboradores anónimos a 22 estabelecimentos em Lisboa, Porto, Faro e Albufeira, onde se apresentavam como clientes que procuravam esclarecimentos e informações sobre os riscos e os cuidados a ter com um pírcingue ou uma tatuagem. Após 39 visitas, 26 revelaram-se “insatisfatórias” (Teste Saúde n.º 55 Junho/Julho de 2005).
O termo de responsabilidade que os estúdios pedem aos clientes para assinarem foi ainda considerado por aquela associação como contendo “cláusulas abusivas e ilegais”, motivos pelos quais levaram a DECO a defender a urgente intervenção legislativa do Governo e uma fiscalização mais regular a este tipo de estabelecimentos.
Não temos notícia de uma fiscalização mais “apertada” a estes espaços. Contudo, em Março deste ano, o grupo parlamentar do Par-tido Socialista elaborou um pro- jecto de lei que, além de regulamentar o funcionamento deste tipo de estúdios, proíbe a aplicação de pírcingues “na língua e no pavimento da cavidade oral, na proximidade de vasos sanguíneos, de nervos e de músculos e sobre quaisquer tipos de lesão cutânea” e, ainda, a realização de qualquer tatuagem, pírcingue ou maquilhagem permanente a menores de 18 anos.
O bastonário da Ordem dos Médicos explicou à agência Lusa que “o pírcingue não tem uma relação directa com o cancro na língua, mas que existem casos de morte provocados por estes pírcingues”. E ainda que “apresentam riscos acrescidos para a saúde, nomeadamente, hemorragias, infecções e fracturas nos dentes, além de serem difíceis de higienizar”.
Tatuadores e body piercers concordam que os pais se responsabilizem pelos filhos menores, mas dizem que isso já acontece porque é pedida a autorização e a fotocópia do bi-lhete de identidade de um dos progenitores.
O PS recuou, entretanto, na questão da proibição a menores, tendo a Juventude Socialista proposto os 16 anos como idade necessária para se “consentir na realização de tatuagens, maquilhagem permanente ou colocação de pírcingues”.
Certa parece vir a ser a obrigatoriedade do consumidor ter de “ser previamente informado, e por escrito”, sobre todos os procedimentos, natureza dos produtos e possíveis consequências da realização de uma tatuagem ou colocação de pírcingues, “dando-lhe oportunidade para que possa reflectir acerca do assunto”. |
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