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O regresso de Miguel Sousa Tavares aos livros tem contornos épicos e de higiene social. As 600 páginas de Rio das Flores percorrem o século XX, da I República ao Estado Novo, com extensões à Guerra Civil de Espanha e à estada da corte no Brasil ou às primeiras viagens aéreas transatlânticas a bordo de zepelins. Depois do triunfo literário de Equador, de ser leitura obrigatória no vestibular e da resistência dos inteligentes anónimos do burgo, o autor diz-se agora mais escritor, mais confiante e “mais livre do que nunca”. Mas se soubesse hoje da fanfarra à volta do êxito, teria escrito com pseudónimo.
Escrever ficção é uma droga dura ou é como fumar um Esplêndido?
É mais uma droga dura. A menos que se queira praticar literatura light.
Mas pelo relatório de prazeres pessoais parece que chega à literatura sobretudo pelo hedonismo?
Hoje posso dizer que retiro prazer desta escrita, mas não foi sempre assim. Houve (e há) grandes dores e grandes sacrifícios para se parecer assim.
Teria hesitado em outro romance se não houvesse o sucesso de Equador?
Ter-me-ia contentado perfeitamente com um livro. Ou pelo menos não teria sentido a responsabilidade de voltar a escrever. Só voltaria quando eu quisesse. Como as coisas se passaram bem com o Equador…
… muito bem [é o escritor vivo que mais livros vendeu com apenas uma obra].
Vivi estes anos com as pessoas a pedirem-me outro livro e percebi que escrever era sobretudo um serviço prestado aos outros. Não a mim próprio ou à minha vaidade e prazer. Sofre-se mais do que se goza com a escrita. Só no fim do Rio das Flores comecei a descobrir esse gozo de ter um livro para escrever. Foi a primeira vez que preferi ter um livro para escrever do que ter um para ler.
Diz também que só escreve livros de que goste de ler.
Desde que consegui ser o responsável editorial de mim mesmo, o que aconteceu quando fui dirigir a Grande Reportagem (GR), disse: “Vou fazer disto a revista que eu gostava de ter – e de ler – e que não existe no mercado.” Foi isso que fiz até ao fim. Estive lá enquanto me deu prazer. Com os livros passa-se exactamente o mesmo. Tenho de escrever uma coisa que me apeteça reler.
E o sucesso atrapalhou-o, sentiu--o como uma invasão, ou também lhe criou uma espécie de responsabilidade social como dizia atrás, um dever higiénico?
Quanto a “invasões”, já estou vacinado com 30 anos de televisão. Nunca imaginei é que o Equador me trouxesse uma exposição pública e um sucesso até maior do que noutros géneros de escrita. Achei que o que tinha já era muito e bastava-me. [Faz uma pausa demorada] Se pudesse… se fosse hoje – tenho pensado muito nisso –, teria escrito o Equador sob pseudónimo. E teria ficado com pseudónimo como romancista. Acho que era a grande decisão que deveria ter tomado. Agora é tarde, mas salvaguardava-me de muitas coisas, de muitos equívocos.
Como define o triunfo literário?
À escala portuguesa é uma coisa, à escala internacional é outra. O Equador tem levado uma vida saudável. Traduções em “ene” países, um prémio importante em Itália… No Brasil foi onde teve melhor recepção. Em termos internacionais, é muito difícil triunfar sem se ser um autor anglo-saxónico. É como o Belenenses ir ganhar ao Estádio do Dragão. As condições à partida são totalmente diferentes. Mas não sei se os editores têm uma tabela para definir quando há ou não um triunfo. Sei que estamos a falar dois dias depois de o livro ter sido posto à venda, mas já me falaram de multidões a fazer fila para comprar livros na FNAC. Isso talvez seja uma espécie de triunfo.
A satisfação pessoal, os afagos da vaidade, dão-lhe mais gozo do que o número de livros vendidos?
Vivo com orgulho e não com vaidade. As pessoas que me conhecem bem sabem que eu sou absolutamente sincero com isto. Não fiquei um grama mais vaidoso com o sucesso do Equador ou a expectativa em relação a este livro. Fiquei apenas orgulhoso pela sensação de ter concluído um trabalho. Foram três anos muito duros. E também se fica orgulhoso por concluir que as pessoas estão atentas e querem e gostam do trabalho. Que há uma receptividade imediata. É como um médico ter uma operação difícil entre mãos e salvar o doente. No fim tem orgulho no trabalho que fez, mas não vem cá para fora gabar-se aos amigos. Faz parte da natureza do seu trabalho, assim como faz parte da natureza do meu trabalho apresentar uma leitura séria. Só não quero que a imagem do best-seller desvie as atenções do livro em si mesmo. Sou a última pessoa a andar a anunciar quantos livros vendi, em que países fui traduzido.
Para isso há as cintas das editoras. Sobre a questão do best-seller, talvez devesse ser tema de estudo nas escolas e não de dor de corno nos meios literários.
Isso é muito português. Aqui há uma certa tendência de uma elite crítica em considerar que um grande sucesso literário não pode ser um grande livro. No Brasil, o Equador foi adoptado este ano como livro obrigatório do vestibular.
O facto de terem agarrado num livro de um autor português, que ainda por cima recusou que houvesse uma versão em português do Brasil, e que esse livro entre no vestibular, isso sim dá-me orgulho. Ali olharam para a qualidade literária do livro. Gostava de discutir sobre isto e não sobre recordes de vendas. Essa ocupação fiduciária é do editor.
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| 30 anos de solidão |
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| A narrativa de Rio das Flores começa em Sevilha, em 1915, e acaba no Vale do Paraíba (Brasil), em 1945. Pelo meio há a exortação do Alentejo e um grito muito pessoal contra todas as formas de atentado à liberdade. Ali se conta também a “saga” dos Ribera Flores, família de latifundiários alentejanos, nos anos sombrios da primeira metade de um século “onde o caminho que conduz à liberdade parece demasiado estreito e o preço a pagar demasiado alto”. Rio das Flores resulta de um laborioso trabalho de pesquisa histórica que por vezes abafa um enredo “de amores, paixões, apego à terra e às suas tradições e à vontade de mudar a ordem estabelecida das coisas”. |
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Interessa-lhe, por exemplo, despertar o entusiasmo dos leitores, levá-los a uma mobilização, neste caso (e no anterior, no Equador) da noção de liberdade individual?
A história do Rio das Flores anda ainda mais à volta da liberdade. É a grande metáfora do livro. É o valor absoluto. É de onde partem todos os outros. É o valor ético mais forte que se pode ter. No livro, a certa altura, há um personagem que diz: “Os portugueses não gostam da liberdade.” Somos um povo de come e cala. Não se pode afrontar o patrão, o paizinho, a ordem. Os portugueses gostam de seguir atrás de quem não os faça pensar ou ter de decidir. Quem lhes dê emprego certo. Isso é a imagem que tenho de Portugal há anos e anos. Dito de outra forma: os portugueses não gostam o suficiente da liberdade para correrem riscos ou tomarem decisões por si próprios. O português é muito do género de que diz mal do chefe mas só pelas costas. Este livro é também a história de como um país, e, aliás, um continente, nessa década ter-rível entre 1930 e 40, conseguiu seguir tantos ditadores e demagogos de massa. Como a encenação estética e intelectual, do fascismo e das ditaduras de esquerda (também falo da direita republicana em Espanha), conseguiu ter a força que teve. Como as pessoas são capazes de agir sem o seu próprio código de conduta. Isso foi muito perturbante na história do século XX.
Neste livro voltam a aparecer a comida, as mulheres, as viagens e também a caça, o amor à terra, à família – os seus prazeres pessoais – tudo em doses lautas. No caso da caça, subscreve a frase do Manuel Alegre de que “há nos homens uma paixão pela caça, como há nos cães, está no sangue”?
Completamente.
E tem ainda um nervo olfactivo muito apurado.
Vou-lhe dizer uma coisa que nunca disse. Perdi por completo o olfacto quando fui operado ao nariz há uns 12 anos. Não cheiro nada. Para o bem e para o mal. Os cheiros são das memórias mais persistentes. Adoro flores e não consigo cheirar nenhuma. Mas só de olhar para elas, imagino.
Fazer da liberdade (política, sexual…) a justificação da vida são aspectos comuns às personagens principais de Equador e Rio das Flores. É o seu modo de encarar a vida?
Uma pessoa desfrutar os prazeres que tem na vida sem ter de justificá-los é uma forma de liberdade. Há imensa gente que passa a vida a dizer-me: Como é que tu, que foste sempre ecologista e ambientalista, gostas tanto de caça? Já desisti de explicar. Um dia escrevo um panfleto sobre isso como fez o Ortega y Gasset. Se há uma coisa que eu faço, que me dá prazer e não incomoda os outros, não mexe com a liberdade de ninguém, para quê ceder ao politicamente correcto?
Por exemplo, saí em defesa dos tipos de Barrancos quando quiseram proibir os touros de morte. Eu não gosto dos touros de morte, nem sequer sou frequentador de touradas ou percebo do assunto – embora haja uma cena de uma tourada em Espanha neste livro. Decididamente não gosto de ver matar o touro na arena. Mas se eles gostam e eu não sou obrigado a ir lá ver, para quê proibi-los? Até na reacção nessa história de Barrancos estava ali um conflito entre liberdade e os censores todos deste país que querem impor a sua moral.
As mulheres da trama pretendem ser fortes, graciosas, inteligentes – lêem a imprensa estrangeira –, mas no fundo não passam de viúvas alegres. Sequestradas no campo, nos costumes, na herdade. É uma questão geracional?
É o enquadramento delas no tempo. Há um diálogo entre a Amparo e a Maria da Glória em que a Amparo diz: “O meu marido pode viajar quando se sente a sufocar e eu não posso porquê?” A outra responde: “Tem calma porque as coisas mudam. Demora tempo, mas mudam.” Isto é a história da geração dos meus avós. Eu não vivi nada semelhante. Mas quando era teenager havia muito a ideia de que o lugar da mulher era em casa. A minha geração foi a primeira a ter mu-lheres a saírem de casa para a vida.
Acha o Pedro Flores um marialva, um radical, uma eterna metáfora doméstica do país, uma espécie de Tomás da Palma Bravo, de O Delfim, do José Cardoso Pires?
O Tomás da Palma Bravo é um tradicionalista, mas decrépito. Ele próprio não acredita no mundo que representa. O Pedro é um ideólogo das tradições. Acredita em tudo aquilo, a ponto de se bater de armas na mão. Não o acho decadente.
A pintora é que é a “mulher de armas” do livro. Abandona o bom partido para ir estudar pintura para Paris.
A brasileira também tem muito fogo.
E o Diogo Flores, com as suas hesitações, dualidades, o encolher de ombros, a fuga para a frente… é outra metáfora, mais plural e actual?
Talvez. Nunca olhei para ele dessa forma.
É um incongruente. Começa por ser um moralista, um certinho, e depois amantiza-se no Brasil com uma mulata mas nunca se questiona, quando passou o livro inteiro dividido entre mundos.
Não concordo. Mais uns anos, e vai perceber o Diogo.
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