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Afectos, laços, separações, situações de risco são algumas questões sobre as quais é preciso reflectir. Defensora das crianças, Claire Brisset fala da sua experiência e partilha-a com o pedopsiquiatra Marcel Rufo.
Por Danièle Laufer |
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Que significou concretamente “defender as crianças”, no seu caso?
Claire Brisset – Estava incumbida de receber as queixas de cada criança ou dos pais, por escrito, de identificar as disfunções colectivas e de fazer propostas para que os direitos das crianças fossem respeitados, incluindo quando era preciso lutar contra maus tratos. Se tivesse de resumir o meu balanço diria que, de uma maneira geral, os magistrados estão sobrecar- regados, nem sempre têm tempo de ouvir as crianças e nem sempre receberam a formação necessária para o fazer bem.
Marcel Rufo – O que é paradoxal é que vivemos numa época em que os adultos procuram sobretudo compreender as crianças, o que é extremamente difícil porque, quando tentamos entender algo que é muito complexo, arriscamo-nos a simplificar de mais. Neste livro, afirma que os profissionais ligados à infância fazem, por vezes, uma utilização abusiva do jargão psicanalítico. O mesmo se poderia dizer dos pais, que de vez em quando deviam reflectir menos e ser mais afectivos. Também é preciso saber ser pai ou mãe, com os defeitos de cada um, a sua impulsividade, as suas dúvidas, sem adoptar a posição de escuta benevolente que é própria do psiquiatra. De tempos a tempos, é preciso ser capaz de dizer “Gostava que estivesses bem, oxalá as coisas se componham”, em vez de perguntar sempre “Porque é que não estás bem?”
C.B. – Também há que ter consciência de que podemos ser violentos com uma criança sem nos apercebermos. É aquilo a que o nosso amigo comum Boris Cyrulnik chama violência invisível. Se repetirmos a uma criança, anos a fio, “Tu és um zero à esquerda, o que é que vamos fazer de ti?”, não nos damos conta de que a humilhamos e desvalorizamos a tal ponto que ela acabará por pensar que, de facto, não vale nada. O problema é que as pessoas que praticam estes actos de violência invisível (pais, professores ou outros adultos) não se apercebem do impacto das suas palavras.
M.R. – Eu vejo uma outra forma de violência invisível: não termos confiança nos nossos filhos, ficarmos decepcionados com aquilo que eles são. É como se os censurássemos não só por não corresponderem ao filho dos nossos sonhos mas por não preencherem todas as falhas e todas as carências da nossa própria infância. Sermos pais é, sempre e em primeiro lugar, adaptarmo-nos ao nosso filho real e não o colocarmos numa posição insustentável. Se ele pensar “Eu devia ser o que a mãe e o pai queriam, mas sei perfeitamente que não sou assim”, isso debilita a sua auto-estima e a construção da sua imagem.
Quando os pais se separam, deve também ouvir-se o que as crianças têm a dizer?
C.B. – A Convenção Internacional dos Direitos da Criança, que a França ratificou em 1990, garante à “criança com capacidade de discernimento o direito de expressar livremente a sua opinião sobre todas as questões do seu interesse” e “a possibilidade de ser ouvida em qualquer processo judicial ou administrativo que lhe diga respeito”. Ninguém pode dizer que a separação dos pais não diz respeito à criança. Portanto, sim, ela deve ser ouvida. Deixá--la expressar-se é permitir-lhe que se sinta, até certo ponto, agente do seu destino. O juiz deve ouvir o que os pais e a criança têm a dizer, para tomar a decisão que melhor corresponda aos interesses desta última.
M.R. – De qualquer modo, as crianças são sempre implicadas, ainda que contra a sua vontade, na separação dos pais. Por exemplo, sabe-se bem que é frequente as mu- lheres decidirem ter um filho quando o casal atravessa dificuldades. Esse filho carrega, de alguma forma, a obrigação de resolver os problemas existentes entre os pais. Se estes se separarem quando a criança tiver quatro ou cinco anos, ela sente-se culpada e responsável. É preciso deixar de dizer que as crianças não sofrem com a separação dos pais. É claro que sofrem, e reconhecê-lo não é reaccionário, é a verdade dos factos. Se elas sofrem, a separação diz-lhes respeito, e têm o direito de falar e de ser escutadas. Imaginar-se-ia que seria favorável à guarda conjunta em caso de divórcio, e afinal é contra. Porquê?
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Identidade
Claire Brisset foi durante 16 anos jornalista no Figaro, no Monde e no Monde diplomatique. Foi Directora de Informação para a L'UNICEF. Em Maio de 2000 foi nomeada Defensora das Crianças por Lionel Jospin, cargo que ocupou durante seis anos. Rendre justice aux enfants (edições Anne Carrière) é o seu livro mais recente. Marcel Rufo, pedopsiquiatra, é autor de numerosas obras sobre crianças e adolescentes. |
C.B. – Penso que a guarda conjunta deve ser atribuída apenas em casos excepcionais e proteger as crianças mais pequenas. Veja--se o caso daquele bebé que era depositado por um dos pais numa alcofa, no elevador, para ser recebido lá em cima pelo outro, simplesmente porque aquelas duas pessoas não falavam uma com a outra! Enquanto a estruturação psíquica da criança não está concluída, isto é, durante os primeiros anos de vida, é preciso protegê-la. São os próprios especialistas em desenvolvimento infantil que o afirmam.
M.R. – Sejamos claros: é certo que as crianças precisam de ambos os pais, mas também precisam de uma casa. É estranho impor a uma criança que mude de casa todas as semanas. Com a guarda conjunta, os pais têm a impressão de anular as consequências que a separação tem para o filho. Na minha opinião, trata-se de um contra--senso, pois impede a criança de aceitar que os pais se separaram. Para que funcione, é preciso que os pais sejam capazes de falar um com o outro e de se organizar, porque não se trata de um sistema fácil de implementar. Tente agora imaginar o que pensa a criança: porque é que os meus pais já não vivem juntos, se se entendem tão bem? Na minha opinião, até aos três anos ainda não se inventou nada que seja tão bom para a criança como a mãe. Portanto, desde o nascimento até essa idade, é preciso estar-se muito atento para não perturbar as crianças em demasia.
Se ouvíssemos mais as crianças, a sua relação com a lei seria diferente quando se tornam adolescentes?
M.R. – Na verdade, penso que a maioria dos adolescentes tem um grande respeito pela lei. Quando a transgridem é para nos testar. Os pais deviam perguntar-se se o que impõem como lei incontornável não corresponde às suas próprias fragilidades. Tomemos o insulto, por exemplo. Proibi-mo-lo aos filhos, mas insultamo-nos alegremente entre nós.
C.B. – E, como eles se identificam com os pais e imaginam que os adultos podem fazer tudo o que querem, imitam-nos, colocando-se em situações de risco.
M.R. – A Claire está a falar de um fenómeno apaixonante e central da adolescência: os comportamentos de risco, que nos obrigam a reintroduzir a lei. Temos de a-dmitir que, em parte, eles são inevitáveis. Para se tornarem senhores de si próprios, os adolescentes têm, de alguma forma, de passar por isso. Os que não têm problemas nunca vão demasiado longe; os outros têm comportamentos de risco muito excessivos. Problemas não são sinónimo de delinquência, mas a delinquência é sinal de que existem problemas.
C.B. – Diz-se muito – e erradamente – que, quando os filhos têm problemas, é porque os pais se demitiram das suas responsabilidades. Muito mais que demissionárias, as famílias das crianças difíceis estão, elas próprias, com problemas. É preciso ajudar os pais, em vez de os estigmatizar – e, para isso, a pedopsiquiatria tem de sair da situação de penúria em que se encontra.
M.R. – Gostaria de dar um conselho aos pais: comecem por se ocupar de vós próprios. Quando um adolescente é problemático, mais vale procurarem estar em forma para sobreviver à sua adolescência e não estarem sempre a pensar no assunto. Sabemos bem que, quando nos aproximamos de um adolescente, ele afasta-se; quando nos afastamos, ele aproxima-se. Que perdemos nós, afinal, se não estivermos sempre numa dependência ansiosa em relação a eles? |
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