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Condição para nos sentirmos bem e em forma, o sono é fundamental para a nossa vida. Conheça os problemas que podem estar por detrás das noites mal passadas.

Por Júlia Serrão

Dormir permite-nos restabelecer as funções físicas e psicológicas essenciais para o bom funcionamento do organismo. Entre outras coisas, porque é durante este período que ocorre “o descanso físico e intelectual e, provavelmente, se consolidam processos de aprendizagem através da sedimentação dos conhecimentos adquiridos durante o dia”, explica o neurologista Manuel Ramalho Gonçalves, médico da consulta do sono do Hospital de S. José, em Lisboa.

Mas as necessidades de sono variam de indivíduo para indivíduo. Há os que dormem quatro ou cinco horas por noite e asseguram sentir-se bem no dia seguinte, completamente descansados – são os short sleepers. E os que precisam de dormir no mínimo 10 horas diárias – os long sleepers. “Cada pessoa tem o seu próprio ritmo”, explica o neurologista a propósito, sublinhando que o importante “é que durma mais ou menos as horas que necessita, com qualidade”.


O stress, os problemas familiares e a dificuldade em conciliar as exigências dentro e fora de casa lideram a lista das causas apresentadas para as noites mal passadas. No entanto, por vezes existem problemas escondidos associados à ausência do sono.

A perturbação mais frequente é a insónia, a qual pode resultar de diferentes factores. A menos grave é desencadeada por factores ambientais: “Por exemplo, dormir numa cama que faz ruído, num colchão a que não estamos habituados, num quarto que não é o nosso, com uma luminosidade diferente. Tudo isto pode interferir nas condições em que se dorme.” Superada a situação, resolve-se o problema. Por outro lado, a vigília pode dever-se a causas físicas ou psicológicas – quando está em causa uma doença inflamatória, um quadro gripal ou uma depressão. “Surge como um sintoma”, explica o neurologista, esclarecendo que esta é uma situação muito comum nas doenças de foro psicológico. “É muito frequente ser a primeira queixa ou ser uma das mais vivenciadas pelo doente. E também uma das mais perturbadoras, pois torna-se difícil de gerir.”


Ciclos do sono
Lento (NREM)
– Sincronizado e tranquilo. As ondas cerebrais ficam mais amplas e mais lentas, a actividade cerebral e o metabolismo atingem os seus níveis mais baixos. Durante este ciclo não sonhamos
Paradoxal (REM)
– Rápido ou dessincronizado. O cérebro fica electricamente mais activo, o seu metabolismo e circulação sanguínea aumentam. Durante este ciclo é frequente o aparecimento de sonhos
Por fim, há uma série de perturbações que determinam a insónia ou a redução da qualidade do repouso. “É o caso das parasónias que são perturbações específicas que ocor-rem em determinadas fases do sono – no lento, por exemplo. Muitas vezes são acompanhadas de fragmentação de sono e podem ser acompanhadas de movimentos das pernas ou do corpo.”

De acordo com o especialista, outro grupo igualmente importante em termos de queixas diz respeito às perturbações respiratórias. “A roncopatia – o ressonar – é uma queixa quase generalizada, actualmente. É mais frequente no homem mas também já começa a ser muito comum na mulher”, observa, explicando que o problema atinge cada vez mais pessoas jovens, na fase final da adolescência. “Está relacionada com o excesso de peso.”


Porém, a grande maioria das pessoas que ressona não tem apneia do sono. Uma situação complicada em termos de saúde, que se caracteriza por paragens periódicas da respiração (superiores a 10 segundos) durante o sono.

Estas paragens podem ter características diferentes. A do tipo obstrutivo acontece quando há uma obstrução à inclusão do ar nas vias respiratórias. “Há uma manutenção do esforço respiratório, mas há uma oclusão da passagem do ar. O doente tenta respirar, faz uma expansão da caixa torácica mas o ar está bloqueado, por exemplo ao nível da orofaringe, ou porque tem um palato muito comprido ou porque tem uma língua grossa em que a base durante o sono cai e tapa a orofaringe.” As a-pneias centrais são diferentes. Neste caso, dá-se uma redução do estímulo cerebral que controla a respiração. “A pessoa não respira, não porque esteja obstruída, mas pelo facto de não ter estímulo central para a respiração”, observa o neurologista, explicando que esta é uma forma relativamente rara de apneia, associada sobretudo à obesidade mórbida. Por fim, as mistas são uma combinação das duas primeiras. É uma a-pneia central seguida por um período mais longo de apneia obstrutiva.

Os estudos e a prática clínica têm vindo a evidenciar uma relação entre a apneia e as doenças cardiovasculares. As pessoas que sofrem desta perturbação correm maior risco de sofrer um acidente cardiovascular, ataque cardíaco e insuficiência cardíaca. Logo, uma acção terapêutica sobre a apneia resolve vários problemas de uma só vez. “Actuando sobre este problema, ou seja, na vertente respiratória, vamos baixar a pressão arterial”, explica o médi- co, alertando para “a complicação maior deste distúrbio: a morte súbita no sono do adulto”.

A narcolepsia é uma patologia do sono relativamente rara e, segundo o especialista, pode ser confundida com outras situações clínicas. Além do cansaço e da sonolência diurna excessiva em que o doente sente necessidade de fazer vários períodos de sono, este pode ser atingido por episódios de cataplexia ou de paralisia do sono. No primeiro caso, “a pessoa adormece subitamente, sem aviso prévio, perde o tónus muscular e entra em fase REM do sono”. Os segundos também são relativamente frequentes: “O doente acorda em fase REM do sono e durante breves segundos está paralisado.”


A boa notícia é que todos estes problemas têm tratamento. Tra-tam-se com relativa facilidade e os doentes ficam bem, garante Manuel Ramalho Gonçalves.

Por vezes, é preciso uma abordagem farmacológica e psicoterapêutica. Nomeadamente, nos casos de depressão. “Mesmo que em alguns casos se recorra a uma pequena ajuda farmacológica por períodos curtos de uma ou duas semanas, é necessário intervir através da terapia comportamental.”

Nas patologias respiratórias, a acção é um pouco diferente. “Na roncopatia, a abordagem é cirúrgica, acompanhada da perda de peso”, enquanto na apneia, “a mais eficaz é mesmo a ventiloterapia”. Segundo o especialista, esta última trata mas não cura, salvo quando se consegue alterar os factores que lhes estão su-bjacentes. Ou seja, se o doente perder peso. No caso da apneia de grau relativamente baixo, relacionada com a posição e em que há como factor importante o excesso de peso, “a colocação de um dispositivo que impeça o doente de dormir de barriga para cima acompanhado de um tratamento de perda de peso evita a colocação imediata do ventilador”.

Os exames auxiliares de diagnóstico das perturbações do sono são actualmente vastos e precisos, permitindo esclarecer com alguma rapidez o que está em causa.













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