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Ter fé no futuro
Por Clara Soares
Ilustrações de Júlio Vanzeler

Pense numa boa razão para não ter fé nos dias que estão à sua frente. As contas, sempre crescentes, para pagar no início do mês. Os imponderáveis. Os engarrafamentos em dias frios e chuvosos. As decepções com amigos, antigos e actuais. As discussões com o chefe e em casa. As notícias no telejornal.

O tempo, visto pelo calendário ou através do mostrador do relógio, traduz-se num pulsar contínuo, mas afigura-se uma coisa vaga à medida que se materializa nos nossos actos e impressões.
Se "viajar" até ao dia em que, por qualquer motivo, experimentou uma situação embaraçosa ou difícil, lembrar-se-á certamente da estranha sensação de eternidade que ficou gravada nesse momento na sua cabeça e também no seu corpo. Na próxima vez que enfrentar uma situação similar - pode até ser diferente, mas basta que esteja na presença de um pormenor idêntico para que essa parte seja tomada pelo todo -, é provável que a memória desse dia surja automaticamente e, sem que se dê conta da razão, comece a sentir sinais de desconforto físico - uma inquietação, palpitações ou uma respiração mais ofegante. Na verdade, o seu organismo preparou-se, sem a sua permissão, para responder a uma espécie de ameaça.

Seja qual for o cenário escolhido, a probabilidade de ele ser exactamente igual ao que viveu anteriormente é reduzida. Porém, o quadro mental que desenhou para si vai condicionar, em certa medida, o desfecho do que está a acontecer na prática. Uma reacção mais brusca, uma defesa face a uma ameaça que não chega a concretizar-se e, em poucos minutos, os resultados assumem uma tonalidade nefasta, que confirma ou excede as suas piores expectativas.

Pela vida fora, o medo vai tomando conta da sua pessoa, o sentimento de si em ocasiões banais fica aos poucos enfraquecido (subnutrido, poder-se-ia dizer) e progressivamente vulnerável ao exterior.

Os filtros que, aos poucos, vamos forjando para ver a realidade à nossa escala são os nossos guias de sobrevivência, para o pior e para o melhor. Os filtros cinzentos - a crítica, o nega-tivismo, a vitimização - alimentam-se através do medo. Ataca-se ou foge-se, erguem-se muros face a potenciais agressores e aí estamos nós, com esse fantasma que é a nossa sombra. Ela toma conta de nós e sabota os nossos so-nhos cor-de-rosa. Em face de um dia risonho, o pessimista desconfia, concentra-se nos pormenores à procura de um sinal de perigo, não vá o diabo tecê-las. No final do dia, a coisa menos boa de que se recorda vai ficar registada como "o que aconteceu nesse dia".

Todos escrevemos a nossa história, interpretamos as situações que vivemos e realizamos um filme para nós. "Lá estou eu neste filme", pensamos, quando pomos o pé na rua e acontece alguma coisa que não faz parte das rotinas. Ficamos "às aranhas", "aos papéis", desorientados e sem saber como reagir. De repente, vem-nos à cabeça o filme do outro dia, alguma coisa que não gostámos, não importa o quê, e sentimo-nos logo lá dentro, aquele desconforto. A partir do momento em que criámos a nossa prisão pessoal, perdemos a fé no futuro.

Cada um escreve a sua história. Manuela Franco decidiu mudar a sua quando, aos 43 anos, arrumou os papéis da secretária e se despediu dos que haveriam de ser ex-colegas de trabalho. Para trás ficaram 20 anos ao serviço da empresa, horários das nove às cinco, poucas variações no salário e a promessa garantida de segurança.

"No meu departamento, todos achavam que eu tinha perdido a cabeça, que estava a fazer uma má escolha", recorda. Contudo, Manuela nunca se arrependeu. Queria experimentar outra coisa na sua vida, sentia-se capaz disso e, acima de tudo, motivada. Há algum tempo que frequentava, aos fins-de-semana, workshops de desenvolvimento pessoal. Aí teve oportunidade de descobrir em si talentos que lhe davam prazer. Um deles era cozinhar. O contacto com o vegetarianismo entusiasmou-a, a ponto de ter desenvolvido várias receitas que foram apreciadas pelo grupo. "Quando fui convidada para trabalhar num centro de artes e desenvolvimento pessoal, fora de Lisboa, a ideia seduziu-me e fui atrás dela."

Na mala levou as recordações, boas e más, daqueles anos. Eram suas, mas não lhe aprisionavam os passos. "Quando deixa-mos alguma coisa, ficamos com um espaço vago para que outra chegue", adianta Manuela, referindo-se ao vazio deixa-do pelo fim de um casamento. "Cada dia é mais uma possibilidade de fazer e de sentir-se bem a fazê-lo. E se dissermos sim, esse dia só pode funcionar a nosso favor." Manuela tem agora um novo amor e as suas artes culinárias depressa a popularizaram na zona rural onde trabalha e habita, em terras alentejanas.



A capacidade de ver para lá das circunstâncias contribui para que as consigamos ver positivamente. Mas nem todos a desenvolvem. "As pessoas que aprendem a não ter fé em si próprias não têm desejos, mas desconhecem a felicidade", afirma o psiquiatra Jorge Mota.

Sem grande noção de si mesmas, essas pessoas tendem a refugiar-se no sonho e na irrealidade. Depois, caso não se tenham em boa conta, podem ficar dependentes dos outros e das situações por recearem o impacto de impulsos de destruição, lados seus com que convivem mal.

"Cada um só é dono de si próprio e daquilo em que acredita se lhe for permitido expressá-lo", explica o médico, contrariando a ideia clássica de que cabe ao terapeuta devolver aos pacientes aquilo que eles sentem que perderam. "Permito às pessoas que exprimam uma potencialidade que ignoram ou na qual tinham perdido a confiança. Ao recupe-rarem a crença nelas próprias, conseguem finalmente libertar-se e fazer algo que as motiva."

A motivação está directamente relacionada com os "filtros" que decidimos usar no dia-a-dia, como confirmaram as investigações de Albert Bandura sobre a percepção de auto-eficácia, no início dos anos 80. O psicólogo provou, através de uma experiência com alunos num contexto de avaliação, que as res-postas mais favoráveis partiam dos que se sentiam seguros de si. Aqueles com baixa pontuação na escala da auto-eficácia ti-nham reacções de apatia ou resignação (se esperavam resultados baixos no teste) ou manifestavam sinais de auto-desvalorização (se esperavam resultados altos). Independentemente do grau de expectativa que depositavam no teste, os que tinham fé em si próprios tinham menos comportamentos ansiosos e menos pensamentos negativos.

Sonhar acordado
Jorge Mota, de 36 anos, psiquiatra e membro da Mensa, uma organização internacional vocacionada para a investigação sobre a natureza e usos da inteligência, diz-nos: "A mente humana está neurobiologicamente programada para ter fé (capacidade de esperar algo). O cérebro seria inútil se apenas interpretasse o que acabou de suceder, em vez de nos preparar para o que vem a seguir: seríamos facilmente presas dos predadores, ou predadores facilmente ultrapassados pelas presas. Uma coisa que a vida me ensinou foi que aquilo a que damos importância, geralmente não tem valor. Só quando aprendemos a distinguir o que é importante daquilo que tem valor é que estamos prontos a apostar tudo para tudo podermos ganhar. Sempre senti esta vontade de ir mais longe. A sensação surge de repente, o horizonte expande-se dentro da minha cabeça e tudo à volta ganha um cheiro que parece vindo de longe, trazido pelos raios de sol. É como se me sentisse pequenino de novo, levado por esse cheiro, essa luz, e deixasse de existir, ficando reduzido a um ponto físico. E a minha cons-ciência expande-se até aos telhados distantes, onde ecoam os gritos das andorinhas, até às árvores que desenham o horizonte escuro de Gaia. Nessas alturas, percebo que posso ser tudo aquilo que quiser, e que o meu único obstáculo sou eu próprio e o meu medo de que-rer mudar. Acredito que nunca perdemos o que é verdadeiramente nosso, perdemos apenas o que não tivermos coragem de reclamar."

"Eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura", escreveu um dia Fernando Pessoa. A ideia ficou arquivada na cabeça de Sofia Farinha, de 35 anos, com uma licenciatura em Psicologia. Para ela, não é importante o que já fez (do secretariado às vendas, passando por consultas e formação em informática), mas a forma como se dedica ao que vai fazendo. O seu percurso profissional seria um problema sério para qualquer pessoa apostada numa carreira estável e num futuro promissor, mas não para ela.

"Não me preocupo com o que ainda não aconteceu, até porque acredito que não existe presente, passado ou futuro, o que há é o agora", explica Sofia. A capacidade para entrar em sintonia com o "agora" é difícil de conseguir na prática, mas é possível. "Há momentos em que me sinto completamente presente, a aceitar cada instante e o que faço nele, sem pensar noutra coisa qualquer." Apaixonada pela física quântica - um ramo da ciência que trabalha com partes indivisíveis de energia (quanta) e pressupõe que a realidade evolui de forma descontínua, ou por "saltos" -, Sofia defende que cada instante vale por si. Abraçar essa aleatoriedade do universo revela-se uma decisão acertada, porque não se rejeita a realidade e não se fica bloqueado nela.

"Quando uma pessoa vai para o trabalho todos os dias e diz que aquilo é 'uma seca', no fundo, a vida diz-lhe: 'É uma seca porque tu queres que o seja.' O que se passa é que ela dá um comando ao cérebro e este envia-lhe um sentimento de 'seca' naquela situação, tornando-a realmente desagradável."

Nestas circunstâncias, corre-se o risco de passar ao lado de coisas potencialmente interessantes e fica-se numa espécie de beco sem saída, à semelhança do que acontece com Tom Cruise, protagonista do filme Vanilla Sky. Trata-se de um homem que perde a noção do que é facto e fantasia. Quanto mais pistas procura no sentido de perceber o que se passa, mais respostas encontra. Porém, todas elas vão dar aos seus desejos e medos, materializando-se em aventuras e acidentes vividos com intensidade e dramatismo, ao ritmo da sua capacidade de sonhar o paraíso e o inferno.

Mesmo as pessoas mais sonhadoras conseguem identificar as vantagens de cultivar um estado de espírito sem lugar para expectativas. Afinal, quando se espera muito, se o que se recebe fica aquém dessa fasquia, é difícil ficar satisfeito (a percepção de desilusão é mais forte).

Fluir
Gisela Barros, de 38 anos, caracterizadora de televisão em regime free-lance, tem uma percepção muito especial da vida. "Gosto de imaginar que sou um grão do universo, regido por leis próprias que transcendem a minha capacidade de entendimento. Procuro não gastar energia a pensar no futuro. De manhã, quando acordo, tenho o hábito de imaginar uma coisa agradável, visua-lizo-a, dou-lhe forma. Pode ser um espaço, um sonho meu, um sentimento. Procuro viver esse estado durante o dia, ele enraíza-se no meu corpo e, aos poucos, deixa de ser uma companhia e começa a fazer parte de mim. De repente, quase sem dar por isso, parece que fico sintonizada noutra frequência. Não raras vezes, vejo-me em situações que se me afiguram como coincidências, mas a que também chamo oportunidades. Aprendi a fugir das ilusões, descobri que o mais importante na vida é manter a capacidade de movimento e deixar que a vida corra sem angústias. Sinto-me grata sempre que me dou conta de ocorrências deste tipo, em que a minha vida parece mudar para melhor. Pode ser um deta-lhe subtil, mas sente-se sempre. É como se o mundo funcionasse a meu favor, naquele preciso instante. Tenho consciência de estar sempre a fazer escolhas - mesmo se a opção for não escolher. Como num jogo em que o tempo conta, quanto mais escolhas, mais as oportunidades de ganhar. O importante é não ficar parado, não passar a jogada a outros. Os elos mais fortes sabem que contribuíram com a sua parte para chegar à vitória. Porém, como muitas pessoas que atingiram o cume da fama, percebem que o acaso foi o seu grande aliado. Só tiveram que ir a jogo."

"Conheço pessoas que passam a vida com fé no futuro, um futuro que nunca chega, porque está sempre à frente delas", remata Sofia, dizendo de outra forma aquilo que já todos sabemos: que não é bom negócio "pôr a carroça à frente dos bois", que o caminho faz-se andando, de preferência com uma atitude pró-activa e feita de entrega.

"Desde a mais remota antiguidade que o ser humano desenvolveu e expandiu a percepção do tempo, usando a capacidade de 'sonhar acordado' e projectando a consciência no futuro." A afirmação é de Armando Gouveia, astrólogo há mais de 20 anos, em Lisboa. Logo que nascemos, defende, ficamos submetidos a estas leis compulsivas que limitam tremendamente as possibilidades de viver com descontracção o instante que passa. Isso acontece em alturas muito especiais da vida: "Geralmente, são momentos de grande ascese mística, mas também ocorrem quando nos apaixona-mos, quando experimentamos um acidente ou antes de uma intervenção cirúrgica. Em qualquer dos casos, implica um estado alterado de consciência."

A interpretação do mapa - representação gráfica do sistema solar no momento em que se nasce - permite-lhe identificar temas que são recorrentes e se revelam no quotidiano, mas não as situações concretas em que se manifestam (aqui entra o factor do "livre arbítrio", tal como as escolhas dicotómicas "0" ou "1" na lógica matemática).

Nas consultas, Armando estabelece analogias entre os quatro elementos que compõem a matéria e as percepções de vida. A concentração de planetas nas casas do Zodíaco permite fazer interpretações sobre a forma como as pessoas reagem às crises.


"As pessoas com mais planetas nas casas de Fogo raramente pensam no passado, comportam-se perante a vida pondo os olhos no futuro", admite o astrólogo. "Quando o elemento Ar predomina, a pessoa tende a viver a grande velocidade, vendo mais em menos tempo, tal como numa viagem de avião." Se existir maior concentração do elemen- to Terra, o tempo dilata- -se e o passado afigura-se como uma constante fonte de lições para o presente ou num futuro imediato. Por último, a percepção do tempo de alguém com mais planetas em signos de água tende a ser líquida, ou seja, "o passado o presente e o futuro misturam-se e dissolvem-se num só, podendo gerar poesia ou confusão".

Em jeito de provocação, o astrólogo assume que o futuro não passa de uma abstracção e, por isso, interessam-lhe menos as previsões: "Prefiro a astrologia como forma de auto-conhecimento, que possibilita ferramentas para que cada um seja mais protagonista da sua vida."

Esta teoria não colide com a importância dos sistemas de crenças para a vida. Afinal, todos precisamos de sonhos para gerir melhor as nossas limitações (ou para suplantá-las). As luzes que nos guiam - seja pela via espiritual, religiosa ou política - motivam-nos a seguir em frente, a não ficar de braços cruzados. No essencial, o amor-próprio é um excelente motor de arranque.

Ver o belo que há dentro de nós e celebrar pequenas dádivas e conquistas gera prazer: tropicais ou desérticas, as pai-sagens contam menos que a nossa abertura de espírito face a elas, sem medo de perder-se. Quem está ligado a si mesmo nunca se perde, qualquer que seja o caminho escolhido. Aceitar trilhar essa rota transforma-se num acto de fé.

O segredo da abundância
1. O que é a fé? Para o filósofo americano John Randolph Price, ela resume-se a um estado de consciência que pode ser inteiramente modulado por cada um de nós. No seu livro The Abundance Book, editado pela Hay House, que se transformou rapidamente num best-seller em vários países, o autor demonstra que nada é impossível, baseando-se nas leis que regem o universo, em si mesmo ilimitado e abundante. Nessa medida, aquilo em que acreditamos traduz-se numa frequência ou vibração que se materializa depois, à semelhança do que sucede com os fenómenos naturais.

2. No concreto, a prosperidade manifesta-se através de recursos visíveis (emprego, salário, investimentos, parceiros, saúde...). "Se a mente estiver focada nos efeitos, bloqueamos o fluxo de energia, mas quanto mais impessoais nos tornarmos face a eles, mais pessoal se torna a nossa relação com a fonte, ou os nossos recursos internos."

3. À luz deste modelo, quando se eleva o estado de consciência, abre-se a porta ao aumento da prosperidade no plano material. O apreço pelo que realizamos a cada minuto é fundamental, pois é nesse comprimento de onda que é possível substituir as ideias de carência (o que nos desagrada) pelas de abundância (o que realmente desejamos ser, e não apenas ter). Assim, alguém que acumula dinheiro (efeito) para uma eventualidade negativa, cria condições prováveis que o conduzem, mais cedo ou mais tarde, a uma situação que toma por fatalidade. Contudo, se puser o dinheiro a circular por uma boa causa, cria condições para funcionar de acordo com o princípio da abundância.

4. A diferença está na intenção: "Se fizer fé na sua auto-suficiência, esse estado reflecte-se no seu quotidiano."
 



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